Esforço físico pode romper aneurisma, afirma neurocirurgião

Especialista explica quais condições cerebrovasculares são agravadas pelo exercício e quais cuidados devem ser adotados antes de treinar.
Esforço físico pode romper aneurisma, afirma neurocirurgião

A relação entre atividade física e saúde cerebrovascular é tema de crescente atenção na medicina. A prática regular de exercícios, incluindo a musculação, é amplamente reconhecida como benéfica para o organismo — controla a pressão arterial, melhora a função cardiovascular e reduz o risco de diversas doenças. No entanto, em determinadas condições cerebrovasculares, o esforço físico pode representar um fator de risco importante.

Aneurismas, malformações arteriovenosas (MAVs) e cavernomas são condições que, quando se rompem, causam hemorragias intracranianas que podem ser fatais. Por isso, a avaliação médica prévia à prática de exercícios é fundamental para pessoas que convivem com essas condições ou apresentam sintomas relacionados a elas.

Feres Chaddad, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e chefe da Neurocirurgia Vascular do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que a elevação súbita da pressão arterial ocasionada pela prática de exercício físico, apesar de fisiologicamente esperada, em pacientes cujos vasos cerebrais estão enfraquecidos, pode ter consequências graves. "A pressão alta provocada por esforços intensos pode, em alguns casos, precipitar o rompimento de aneurismas, cavernomas ou MAVs".

Segundo o especialista, diferentes tipos de exercícios podem estar associados ao rompimento de diferentes doenças cerebrovasculares, como os aeróbicos (corrida), por exemplo, que parecem favorecer o rompimento de aneurismas cerebrais, especialmente quando já há uma fragilidade na parede do vaso. "Atendi alguns casos em que pacientes tiveram o rompimento de aneurisma durante a realização de uma corrida na esteira. Também tenho observado casos de pacientes com MAV que evoluíram com ruptura após a prática de musculação", relembra Feres Chaddad. "Entretanto, até o momento, não há evidências na literatura que estabeleçam uma correlação direta entre a prática de atividades físicas e o rompimento de MAVs", completa.

Das pesquisas recentes sobre o tema, uma apontou a associação entre atividade física intensa e ruptura de aneurisma, embora o risco absoluto seja baixo. A revisão "Strenuous Activity and Intracranial Aneurysm Rupture: Mechanisms, Epidemiology, and Clinical Implications" aponta que a atividade física intensa desencadeia múltiplas alterações fisiológicas que, teoricamente, aumentam o risco de ruptura de aneurisma, incluindo elevações agudas da pressão arterial, vasoconstrição cerebral induzida por hiperventilação e picos de pressão intracraniana relacionados à manobra de Valsalva (levantamento de peso e/ou atividade sexual).

Estudos epidemiológicos relatam um aumento de 2,4 a 11,6 vezes no risco de ruptura durante esforço vigoroso. Atividades que envolvem a manobra de Valsalva apresentam risco particularmente elevado. As recomendações individualizadas de atividade física devem equilibrar o risco de ruptura com os benefícios cardiovasculares do exercício.

"Também é importante que pessoas que não foram diagnosticadas com essas condições, mas que apresentam sintomas que possam estar relacionados com as doenças, como dores de cabeça constantes, tontura e visão embaçada, procurem uma avaliação médica antes da prática de exercícios", argumenta Feres Chaddad. 

Segundo o especialista, exames de imagem podem ajudar no diagnóstico. "Quando indicadas, a angiotomografia ou a angiorressonância são fundamentais para detectar alterações silenciosas, como aneurismas, cavernomas e MAVs. Identificar essas condições precocemente permite o tratamento adequado, seja por cirurgia e/ou procedimentos endovasculares", conclui.


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