Olivia Bonfim escala Everest e Lhotse e entra no Guinness

Empresária, consultora financeira e alpinista, tornou-se a primeira brasileira a concluir o Double Head, a escalada consecutiva dos dois montes, Everest e Lhotse
Olivia Bonfim escala Everest e Lhotse e entra no Guinness

O montanhismo de alta altitude reúne alguns dos ambientes mais hostis à presença humana. Acima de 8 mil metros, faixa que os alpinistas chamam de "zona da morte", a pressão atmosférica cai a ponto de o organismo consumir oxigênio mais rápido do que consegue repor, mesmo em repouso.

Foi nesse cenário que a montanhista brasileira Olivia Bonfim se tornou a primeira mulher sul-americana a completar o Double Head, desafio que consiste em escalar em sequência o Monte Everest (8.849 metros), maior montanha do mundo, e o Lhotse (8.516 metros), a quarta montanha mais alta do planeta, ambos no Himalaia, no Nepal.

Por essa conquista, ao lado de Carlos Santalena, eles foram reconhecidos pelo Guinness World Records 2026 como o primeiro casal do mundo a escalar essas duas montanhas em menos de 24 horas.

Empresária, consultora financeira, palestrante e alpinista, Olivia atingiu o cume do Everest em 21 de maio de 2024 e o do Lhotse no dia seguinte. Mais do que resistência física, expedições assim exigem entender o que a altitude provoca no corpo.

Com o ar rarefeito, a saturação de oxigênio no sangue despenca e tarefas simples, como caminhar poucos metros, passam a gerar falta de ar e taquicardia. Sinais de mal-estar podem surgir ainda em altitudes intermediárias e se intensificam com a subida. No topo do Everest, o organismo dispõe de pouco mais de um terço do oxigênio disponível ao nível do mar, condição que compromete o julgamento e a tomada de decisão, justamente onde qualquer erro pode ser fatal.

A preparação começa muito antes da viagem. Olivia relata que acumulou experiência em altitude em ascensões anteriores para chegar ao Himalaia.

"Foram diversas outras montanhas para ganhar experiência em altitude. Escalei algumas de 6.000 m na Bolívia, o Aconcagua (6.961 m) na Argentina e o Pico Lenin (7.134 m) no Quirguistão", conta. No Brasil, a rotina de treinos durou cerca de um ano e combinou corrida, musculação, natação, ciclismo e trilhas longas com carga, conciliadas a uma jornada intensa de trabalho.

Tão determinante quanto o preparo físico é o controle emocional diante do risco. A escalada envolve trechos técnicos e depende de fatores que fogem ao controle do alpinista, como as condições climáticas.

"A escalada do Everest tem trechos delicados com risco de queda que exigem total atenção. Além do risco na escalada, o sucesso da expedição depende de inúmeras variáveis, como, por exemplo, o clima", afirma.

Segundo Olivia Bonfim, essa imprevisibilidade gera tensão constante, administrada com foco e disciplina construídos ao longo dos anos — hábito que, como relata, começou fora das montanhas: "Comecei a fazer trilhas há 10 anos como forma de lidar com a ansiedade e desligar minha mente do trabalho", completa.

A estratégia de subida também obedece a uma lógica de sobrevivência. A aclimatação é feita de forma gradual, com avanços e recuos entre acampamentos, para que o corpo se ajuste à baixa oxigenação antes do ataque ao cume. Até a hidratação se torna um problema técnico: como a água provém do degelo, é pobre em minerais.

"A água que consumimos na montanha é obtida da neve e é muito pobre em minerais, por isso, para realmente nos hidratarmos, precisamos adicionar eletrólitos", explica a alpinista. Somam-se a isso o frio, que pode chegar a temperaturas próximas de 40 graus negativos, e a exposição prolongada, que dão a dimensão do desgaste enfrentado.

Na prática, a subida ao Everest se divide em cinco acampamentos, cuja estrutura e alimentação se reduzem à medida que a altitude aumenta. Nos pontos mais elevados, acima de 7 mil metros, as refeições dependem de comida liofilizada, preparada apenas com água fervida, e o sono é interrompido pelo frio e pelo ruído das avalanches.

De acordo com Olivia Bonfim, o ataque final ao cume do Everest durou 17 horas, e o do Lhotse, 18 horas, entre subida e descida — janelas em que o corpo opera no limite e a escolha de seguir ou recuar precisa ser feita com uma lucidez cada vez mais escassa.

Para ela, a travessia sintetiza um método que ultrapassa o esporte e dialoga com ambientes de liderança e gestão. "Essa conquista é uma prova de que, com planejamento, preparo e uma dose de coragem, podemos alcançar o que antes parecia impossível", declara.

A montanhista associa o resultado à ampliação da presença feminina no esporte: "Espero ser a primeira de muitas mulheres e que a gente continue ocupando novos espaços e abrindo caminhos uma para as outras, nos fortalecendo e expandindo nossos limites", indaga.

Para saber mais, basta acessar: https://oliviabonfim.com.br/


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